Prédio de oito andares ancora novo edifício de 20 pavimentos

A engenharia adotada na ampliação do Hospital Sírio-Libanês, em área central de São Paulo, permitiu a construção de um dos edifícios, de 20 pavimentos, sobre a estrutura antiga do prédio de oito andares. Naquela e nas outras duas novas edificações houve uso de tecnologias de ponta

O projeto da ampliação do Sírio-Libanês, concebido e elaborado pelo escritório de arquitetura L+M Gets, refere-se apropriadamente a uma espécie de “implante arquitetônico”. O termo explica o êxito da obra, executada num hospital em operação normal, que ficou durante todo o tempo, mesmo no pico dos trabalhos, que reuniu contingente de mais de 1.300 pessoas, imune a qualquer possibilidade de interrupção. São três torres: E (a maior – com 20 pavimentos), F (com 14 pavimentos) e G (com 17 pavimentos), somando área construída da ordem de 72 mil m². Na prática, o hospital, que antes da reforma possuía 350 leitos, passa a disponibilizar 710, com maiores e mais modernas instalações.

Desde o começo das obras, em 2011, estava claro que a construção, a cargo de duas empresas experientes, a Método Engenharia e a Schahin Engenharia, exigiria um conjunto de tecnologias novas e uma infinidade de pequenos cuidados do ponto de vista de planejamento, gerenciamento e exigências logísticas. A rigor, elas não dispunham de área para a instalação de canteiro. Os trabalhos teriam de ser desenvolvidos no espaço da estrutura do hospital, na Bela Vista, no enclave das ruas Nicolau dos Santos e Barata Ribeiro e Daher Cutait, junto à antiga praça 14 Bis, ao lado da avenida Nove de Julho. As construtoras teriam de respeitar a história do bairro, da vizinhança (grande parte residencial) e a especificidade da rotina das atividades hospitalares.

As primeiras instalações foram inauguradas em agosto de 1965. Resultaram de um generoso trabalho humanitário da então Sociedade Beneficente de Senhoras, que convocou empresários e médicos, entre eles o dr. Daher Elias Cutait, hoje nome de rua no local e que foi o primeiro diretor clínico do hospital, a fim de materializar a ideia da construção do estabelecimento hospitalar.

Construído naquela época e ampliado conforme o aumento da demanda e da necessidade da aquisição e uso de novos equipamentos, ele veio a exigir uma reforma mais ampla de suas instalações em anos recentes. E a construção dos novos espaços deveria considerar essa história, seu desenvolvimento e a excelência dos serviços continuamente prestados. O projeto de arquitetura, e a engenharia adotada, levaram em conta aqueles parâmetros, sobretudo os requisitos para a continuidade e a manutenção do padrão daqueles serviços. Por isso, o processo para a conquista da certificação LEED Gold tornou-se uma consequência natural.

 

As soluções logísticas

Os engenheiros Gustavo Aguiar (Método Potencial Engenharia) e Jorge Hercos (Schahin Engenharia), ambos gerentes de contrato, relacionam as principais dificuldades no curso da construção e chamam a atenção, em especial, para a questão das soluções logísticas. “Entendemos”, enfatiza Gustavo Aguiar, “que o maior problema foi mesmo fazer essa construção com o hospital em funcionamento. A região não ajudava muito. É extremamente urbanizada, havia restrição de circulação de veículos pesados e as operações ininterruptas de carga e descarga de equipamentos e materiais, além da movimentação de trabalhadores, não poderiam prejudicar pacientes nem o trabalho dos funcionários e das equipes médicas. Tudo precisava ser feito num ambiente de absoluta normalidade”.

Jorge Hercos reforça: “Praticamente não havia espaço para estocagem de materiais. O canteiro era o local da própria evolução das obras. Pudemos dispor de um terreno pequeno, aqui perto, para algum apoio, mas local para um canteiro mesmo não havia. E teríamos de proceder à operação de transporte vertical dos equipamentos e materiais simultaneamente ao avanço das obras.”

Aguiar lembra que as construtoras chegaram a contar com sete elevadores cremalheiras funcionando ao mesmo tempo. “Tivemos que replanejar, mudar as cremalheiras de posição, utilizar adicionalmente quatro gruas e outros equipamentos, para manter o fluxo do transporte de homens e materiais.”

Alguns dos elevadores cremalheiras tiveram de ser instalados segundo dimensões previamente especificadas para o transporte de painéis de fachadas e de outros elementos.

Os dois engenheiros salientam que durante todo o tempo da construção — e em especial antes desse processo — o trabalho mais notável de engenharia foi o planejamento. “Não dá para executar um serviço dessa natureza, considerando-se as restrições já mencionadas, sem, antes, cuidar do planejamento em todas as suas fases e minúcias: as soluções logísticas, a entrada e saída dos trabalhadores, a instalação de refeitório (selecionamos um local no meio da torre e, depois, em outros lugares da torre em construção conforme o andamento dos trabalhos). O refeitório, que funcionou nessas circunstâncias, operava em três turnos. E havia, paralelamente, os cuidados com higiene e saúde, tomando-se precauções quanto a ruídos, difusão de pó e prevenção para neutralizar fatores dessa ordem, que pudessem causar desconforto aos pacientes internados nas torres anteriormente construídas”.

Um espaço construído em cima de outro

O projeto do bloco D, construído nos anos 90, já previa uma expansão futura. Tanto é que as fundações — tubulões e sapatas — tinham sido concebidas e executadas levando em conta essa possibilidade. Contudo, o projeto da expansão incluía na torre E uma quantidade de andares e cargas superiores ao que fora inicialmente previsto.

Para a manutenção desse programa de obras, houve necessidade de reforço nas fundações originais, recorrendo-se a diversas soluções técnicas. Uma delas previa o aumento da seção do tubulão. Para isso, procedia-se à escavação das laterais do tubulão, a execução de novos tubulões adjacentes para aumento da seção e, posteriormente, a concretagem de novo bloco também com maiores dimensões. Em alguns casos houve também o aumento de secção de pilares e, em outros, o reforço de pilares, vigas e lajes com concreto de alto desempenho e fibra de carbono.

Fazer o reforço de um tubulão, cuidando-se ao mesmo tempo do bota-fora do material escavado, em uma área restrita onde não havia como movimentar equipamentos, foi um trabalho de extrema complexidade. E deu certo. Há um pormenor que ilustra o grau dessa operação: era preciso reforçar o tubulão encravado na central de geradores, sem que estes fossem desligados. Os engenheiros mandaram fazer o isolamento da área no espaço exíguo de 2 x 2 m, com um planejamento específico da parte de segurança do trabalho. Depois do reforço e da concretagem do bloco foi removido o isolamento.

A colocação de uma estrutura maior sobre uma estrutura antiga e menor implicava o planejamento para que os pavimentos ali acrescentados tivessem peso específico menor. Por isso, optou-se, na construção desses novos pavimentos, pelo emprego de estruturas metálicas, como laje steel deck, que dispensa escoramento, reduz gastos com desperdício de material e facilita a execução, permitindo maior rapidez construtiva. Além disso, tanto na torre maior (E) quanto na torre F, que ancora oito pavimentos sobre uma estrutura antiga houve o uso da tecnologia drywall e steel frame nos fechamentos internos. Foi empregada alvenaria somente na caixa da escadaria e no poço dos elevadores (que somaram 29 novos equipamentos), para o qual foi executada uma fundação específica. Até mesmo a concretagem das lajes e alguns elementos foi efetuada com concreto de baixo peso específico.

À exceção das torres E e F, a G foi construída pelo método convencional, a partir de escavações, contenção com parede-diafragma e fundação com estacas barretes, solução que permitiu simultaneamente a construção do subsolo e a contenção do terreno, de modo a proporcionar proteção às fundações dos prédios vizinhos. No conjunto, são quatro subsolos totalizando 17 pavimentos.

 

As instalações e segurança

As instalações hospitalares exigiram um cuidado especial. O suprimento de energia elétrica, gases medicinais, água fria, água quente e água gelada para o sistema de ar-condicionado foram ampliados e interligados aos sistemas existentes do hospital em funcionamento. Foi construída também uma usina de geração de energia com capacidade de 8.750 kVA e instalados geradores backup com 4.500 kVA de potência, além de nobreaks de 900 kVA de potência, que constituem um sistema seguro de abastecimento de energia. Para o abastecimento de água gelada do sistema de ar-condicionado foram instalados chillers com capacidade total de 3.040 TRs. O sistema de água quente é suprido por aquecimento solar, trocadores de calor elétricos e caldeiras a gás, demonstrando a redundância necessária para assegurar o abastecimento ininterrupto de que um hospital de ponta necessita.  

 

No meio do caminho, uma estrutura protendida

Essas ampliações implicariam um sistema inteligente de circulação entre as edificações, para que pacientes, visitantes e outros usuários não se sintam deslocados ao passar de um ambiente para outro.

Em meio ao sistema de circulação há uma estrutura que requereu cuidado singular na construção. Trata-se de uma laje com vão-livre de 24 m. As construtoras executaram essa laje de ligação com vigas de concreto protendido, porque exatamente naquele local não seria possível fazer uma nova fundação. Ela se localiza em um subsolo, em área em operação permanente. A solução foi construir uma estrutura livre, protendida, e engastá-la nas estruturas fixas laterais (blocos F e G). Para escorar o primeiro pavimento foi feita uma estrutura metálica provisória para apoio das escoras, sem comprometer as atividades do pavimento inferior.

 

Tecnologia de ponta

Gustavo Aguiar e Jorge Hercos são unânimes: da fundação à conclusão das novas instalações, nunca se deixou de empregar tecnologia de ponta. Uma solução que reforça essa afirmativa é a execução do contrapiso. A premissa do projeto, nesse sentido, é de que ele fosse considerado um contrapiso acústico. Além da laje, a concretagem seria realizada sobre uma manta acústica.

Como se dispunha de áreas muito amplas, os responsáveis pela construção decidiram fazer alguns testes iniciais e observaram que poderia haver o risco de empenamento. É que o concreto, consistindo de uma placa muito fina, da ordem de 5 cm a 7 cm, resultaria num pano muito grande que se retrairia na face superior. Para evitar isso, foi desenvolvida uma solução própria — um traço especial de concreto com um aditivo, mantendo-se um controle tecnológico específico e uma forma de aplicação também específica. Com essa solução foi executada a laje, dotada de contrapisos armados em toda a área do pavimento de modo a proporcionar a isolação acústica prevista e a produtividade necessária. Além disso, forro, paredes, portas e outros elementos são dotados de solução acústica própria.

A fachada também possui uma solução de alto desempenho. Adota alumínio composto e vidro especial.

 

Certificação LEED

O empreendimento busca a certificação LEED Gold. E tem argumentos decisivos para a obtenção dessa conquista. O projeto, nesse sentido, foi submetido ao Green Building Council, que validou pontos que ele especificou: utilização de águas de reúso, aquecimento das instalações com placas solares, telhados verdes e outras soluções que distinguem as edificações do ponto de vista da consciência da sustentabilidade ambiental.

É dentro dessa conceituação que as três torres foram construídas, seguindo um cronograma segundo o qual elas vêm sendo liberadas e entregues para funcionamento, seguindo diversas etapas.

Os dois engenheiros dizem que, hoje, os acabamentos se encontram na fase final e dentro de uma estratégia em que o planejamento dos trabalhos constitui uma grande lição, dentro da arquitetura e da engenharia voltada para a humanização das edificações hospitalares.

 

Medidas para modernizar instalações

A obra de ampliação do Hospital Sírio-Libanês moderniza também as instalações elétricas, hidráulicas e de ar-condicionado. O hospital conta com uma usina de geração formada por três geradores a diesel de 3,4 MVA cada um e outro de 2,5 MVA. O sistema provê energia elétrica no caso de falha da concessionária e permite o uso da opção de geração com diesel no horário de pico (17h30 às 20h30). Para economizar água, o esgoto proveniente dos lavatórios, chuveiros, pias e também a água de chuva coletada na cobertura são tratados e reutilizados nos sistemas de ar-condicionado, de irrigação e de bacias.

Os barramentos blindados, que possuem maior capacidade de condução de corrente em relação à distribuição com cabos, e que contribuem com a diminuição da perda por queda de tensão, também podem ser usados. Esta solução, um pré-requisito para o LEED, permitiu uma redução significativa tanto do custo como do espaço ocupado pelos alimentadores.

O ar externo quente e úmido é resfriado e desumidificado, possibilitando a otimização da qualidade do clima interno. “Para o aquecimento da água, optou-se pelo uso de bombas de calor, que oferecem melhor eficiência do que um sistema elétrico ou a gás”, conta Raymond Khoe, engenheiro da MHA Engenharia, que realizou os projetos de elétrica, hidráulica, incêndios, gases medicinais, sistemas eletrônicos, controle de fumaça, pressurização de escadas, climatização e ventilação das novas torres.

O sistema de monitoramento realiza o controle e ajustes das demandas de energia. De acordo com as variações de carga térmica e intensidade de luz natural, o sistema de automação otimiza o uso dos equipamentos de ar-condicionado e a iluminação artificial em qualquer horário do dia ou da noite.

Para tornar a instituição mais funcional e reunir os sistemas de segurança do complexo e das novas torres em uma única nova sala, foi realizado o retrofit dos equipamentos da central de água gelada (CAG).

Os sistemas de distribuição principal de baixa tensão em barramentos blindados viabilizam a conexão de novas linhas de alimentação, Sistema de Segurança (Controle de Acesso e CFTV PoE) e Chamada de Enfermeira com tecnologia IP. Trafegam na rede corporativa, o que facilita a expansibilidade dos sistemas da instituição.

Outra novidade, prevista para as novas torres, é o controle de fumaça. Ele extrai mecanicamente a fumaça e faz a reposição mecânica de ar limpo. Em caso de incêndio, as pessoas podem ser retiradas com segurança.

Durante o processo de obras do hospital, houve preocupação com a escolha dos materiais a ser utilizados, optando-se por aqueles que apresentassem alta durabilidade, resistência à corrosão, facilidade para substituição e gabinetes com espaços adequados para permitir manutenção. Por uma questão de complexidade no controle do tratamento de água, foi descartado o reúso de água das bacias sanitárias e da água pluvial coletada no pavimento térreo.

 

Ficha Técnica - Ampliação Hospital Sírio-Libanês

 

- Obra: Ampliação do Hospital Sírio-Libanês, em SP

- Construção: Método Potencial Engenharia S. A. e Schahin Engenharia S. A.

- Projeto de arquitetura, iluminação, caixilharia e fachada: Escritório L+M Gets

- Projeto da estrutura de concreto e metálica: ETCPL

- Projetos de instalações elétrica, hidráulica, automação
e telecomunicação: MHA

- Fundações: Consultrix

- Reforços estruturais: Escale

- Projeto de acústica: Passeri Arquitetos Associados

- Lajes steel deck: Metform

- Consultoria Leed: CTE

   - Outros fornecedores:

        Estruturas metálicas (Codeme e Usiminas)

        Acústica (Sotreq, Harmonia, Isonar)

        Fachada (Tecnofeal e Alubond)

        Esquadrias (Alumitre, Dipanny, Metálika)

        Impermeabilização (Proiso e Proassp, Unimper)

        Forro tensionado (Clipso e Diarco)

        Contenção (Geofix)

        Mármores e granitos (Di Mármore)

        Elevadores e escadas rolantes (Atlas Schindler)

        Iluminação (Trilux)

        Ar-condicionado (Servtec)

        Instalações elétricas e hidráulicas (Temon)

        Sistemas eletrônicos (Bettoni, MML, JCI, Eritel, Teleinfo, Schneider)

        Gases Medicinais (Air Liquid)

        Correio Pneumático (Aerocon)

        Consultor de concreto de alto desempenho (Prof. Paulo Helene)

                                               Consultor de fachadas (Paulo Duarte)

 





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